• Alexandre Constantini

É hora de repensar a estratégia - Artilharia pesada de “fogo amigo” na China


Em posts anteriores, já defendemos com afinco as Big Techs chinesas, por sua vanguarda, liderança, pioneirismo, capacidade disruptiva, e principalmente, pelo enorme potencial do mercado chinês. Nada disso mudou.


Sabemos que investir num país como a China, onde o Governo controla com pulso firme o desenvolvimento dos mais variados setores e mercados, ficamos sujeitos à sustos esporádicos, embora há algum tempo nos parece notória a disposição de Pequim em fomentar e consolidar a liderança dos seus players de tecnologia, bem como os evidentes acenos aos investidores globais ao longo nos últimos anos para melhorar a Governança do mercado de capitais chinês. Foram inúmeros IPOs, vários deles liderados por grandes bancos americanos, com listagem de recibos (ADRs) na Nasdaq e NYSE, que – na teoria – oferecem uma segurança maior ao investidor estrangeiro, uma vez que a listagem nos EUA requer muitas informações sobre as empresas, além de práticas de governança a serem seguidas.


Ou seja, sempre soubemos dos riscos de se investir na China, uma inquestionável potência, mas sempre encaramos tal risco sob um mesmo prisma (ainda que em magnitudes diferentes) de que também existem riscos de se investir em outros mercados emergentes – como o Brasil, seja pela instabilidade política, pelas incertezas econômicas e fiscais, pelo intervencionismo em estatais importantes (como Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil). Cabe ao investidor colocar na balança o “risco-retorno” dos investimentos e pensar sua estratégia.


No portfólio do Newton, tínhamos até recentemente três magníficas empresas chinesas: AliBaba, Tencent e Baidu. São três conglomerados fortíssimos, com presença líder nos mais diversos segmentos: e-commerce, Inteligência Artificial, dados corporativos na nuvem, plataformas de pagamentos e serviços financeiros, streaming de vídeo, gaming, mecanismo de busca, além de novos projetos que tendem a ser muito representativos em pouco tempo, como carros autônomos. Além disso, estas três empresas têm a cultura de investir em startups dos mais variados segmentos (Tencent e Alibaba tem investimentos em algumas centenas de empresas), das quais várias irão se tornar unicórnios em poucos anos.


É fato que tais empresas “chegaram onde chegaram” com a anuência do Partido Comunista chinês. Mas recentemente o Governo tem demonstrado sua insatisfação com o tamanho e poder dos “Frankensteins que ele mesmo permitiu que fossem criados. E resolveu agir para limitar o crescimento e força desses players, com regras mais duras em várias das operações destas empresas. Até aí, não vemos tanto problema, afinal, os EUA também estão debatendo limitar o poder das FAAMGs & Cia, como uma maneira de fomentar novos competidores.


Na China, a degola começou com o Alibaba na 2ª metade de 2020, quando seu fundador (Jack Ma) criticou algumas regras referentes ao segmento de Fintechs. Tais críticas frearam o tão esperado IPO do Ant Financial (Jack Ma também é acionista), como custou uma série de retaliações às operações do Alibaba (forçando a venda de algumas subsidiárias menores) e uma enorme multa de USD2,8 bilhões. Quantia assustadora isoladamente, mas administrável para quem tem USD70 bi em caixa e gera outras dezenas de bilhões em free cash flow por ano. Inclusive a ação subiu forte no dia do anúncio, na expectativa de que a caça às bruxas (no caso de Alibaba) tivesse chegado ao fim.



Investir na China tem ainda o risco geopolítico do eterno braço-de-ferro entre EUA x China. Mas neste caso, o poder de fogo norte-americano é limitado, uma vez que a grande parte das receitas destas empresas é originada na própria China ou no Sudeste Asiático. Boicotes e ameaças dos EUA e União Européia não “tiram dos trilhos” nenhuma das Big Techs chinesas, embora possam afastar grandes fundos de investimentos da sua base de acionistas.


Mas as recentes decisões do Governo de Xi Jinping com referência ao IPO da Didi Chuxing (mais conhecida como o Uber da China) dizimaram a confiança dos investidores estrangeiros em ações chinesas. Após um IPO muito bem sucedido da Didi nos EUA no fim de junho, levantando USD 4,4 bilhões, um órgão regulador chinês proibiu que as lojas virtuais oferecessem o app da Didi, numa alegação nebulosa que a Didi estaria tendo acesso a muitos dados dos consumidores, alguns deles de maneira ilícita. Tal decisão fez com que as ações da Didi despencassem 20% no dia, carregando junto várias outras empresas chinesas listadas nos EUA. Na sequência, novos atos do Governo chinês suspenderam IPOs nos EUA de subsidiárias da Tencent, evidenciando – no nosso entendimento – uma clara perseguição de Pequim às empresas que estão lançando suas ações nos EUA. Neste contexto, a equação risco/retorno fica extremamente assimétrica, e pouco importa valuation, potencial de mercado, inovação tecnológica. O “dono da bola” resolveu impor regras que afetam o desenvolvimento normal das empresas. Podemos argumentar que Alibaba está muito barata sob a ótica de qualquer múltiplo que desejemos olhar vis-à-vis o crescimento que teoricamente apresenta, mas o risco desta intervenção nociva que o Governo vem fazendo pode fazer com que ela continue barata por muito tempo.


Continuamos grandes entusiastas das Big Techs chinesas nos critérios de Tecnologia, Finanças, Mercado e Pessoas (há grandes líderes e grandes gestores nestas empresas, por mais que tenhamos severas críticas ao Governo), mas o risco imposto pelo Partido Comunista chinês escalonou e foge do aceitável. Melhor sair e comprar ações de empresas com melhor risco-retorno em outras partes do planeta. Foi o que fizemos, por ora, sem pressa para retornar às Big Techs chinesas.


F=ma