• Alexandre Constantini

Blue Wave e Big Techs – Sem motivos pra pânico

O momento de turbulência para o setor de tecnologia parece estar no auge após a vitória Democrata no Senado, confirmando o que há alguns meses mostrava-se ser o maior temor de Wall Street – a Onda Azul, com os Democratas (do Presidente eleito Joe Biden) controlando também o Congresso e o Senado.


É notoriamente sabido que os Democratas defendem (ao menos na teoria) uma regulamentação mais rigorosa para as Big Techs e taxação de grandes fortunas, e tais argumentos foram bastante vocais no mote de campanha dos senadores Elizabeth Warren e Bernie Sanders, derrotados na convenção Democrata. Warren e Sanders porém, seguem senadores, e suas ideias podem ganhar os holofotes nos próximos meses. E Warren, inclusive, foi bem cotada para ser vice de Biden no lugar de Kamala Harris.


O Blue Wave ocorreu num momento onde o conflito EUA-China atinge seu ápice, com reguladores americanos banindo empresas chinesas de ter suas ações negociadas em Bolsas americanas. Por ora, 3 grandes telcos “já pagaram o pato” (China Telecom, China Unicom e China Mobile), e agora o canhão parece estar virado para outros grandes conglomerados chineses, como Tencent, Baidu e Alibaba (este último, inclusive, num inferno astral com o Governo de Pequim – aqui sim uma bela enxaqueca em potencial).

Arriscaríamos dizer, no entanto, que o Blue Wave, assim como as tensões comerciais EUA-China, ficaram menores perto do “espetáculo pastelão” estrelado por Trump nos últimos dias. Sua incontinência verbal e falta de diplomacia ficaram evidentes ao longo dos 4 anos de sua gestão, relevados, no entanto, por anos de prosperidade econômica e pleno emprego. Mas o destempero de seus atos e ideias nos últimos meses e principalmente nos derradeiros dias na Casa Branca mostrou que - talvez - os EUA tenham flertado inconscientemente com uma ameaça maior todo esse tempo: o risco à democracia. E essa postura atabalhoada levou várias Big Techs a restringirem (e até banirem) Trump & Cia de seus domínios, “aos 45 minutos do 2º tempo”. Tal grupo inclui Twitter, Facebook, Google, Amazon, Snapchat, Youtube, Reddit, PayPal, Shopify, empresas estas que teoricamente estão na mira do escrutínio democrata.


Difícil atestar o que está por vir, mas alguns fatos são evidentes e podem (deveriam) servir para amenizar preocupações do mercado:

- Empresas potencialmente alvo de medidas restritivas do novo governo Democrata “romperam” com Trump, não só demonstrando que não se alinham a possíveis práticas anti-democráticas, como provavelmente ganharam ainda mais a admiração de boa parte da população americana. Impossível subestimar ou desmerecer o bem que tais empresas propiciam na vida das pessoas (principalmente no tortuoso ano da pandemia), bem como o turbilhão de empregos que geram direta e indiretamente.

- De acordo com a FOX Business, empresas como Apple, Amazon, Google, Facebook e Microsoft aparecem como as maiores doadoras de recursos para a campanha dos senadores Democratas no estado da Georgia (que definiu a maioria e confirmou o Blue Wave). Por mais que doação de grandes empresas para políticos seja algo de praxe, razoável assumir ao menos um mínimo de afinidade e possibilidade de diálogo.

- Estamos falando de EUA, a maior democracia do mundo (apesar dos tristes episódios recentes) e a maior economia de mercado do planeta. Decisões unilaterais com desfechos disruptivos estão fora de cogitação, na nossa opinião.


Brainstorming juntos aqui...O que de pior pode acontecer com a Amazon? Ser forçada a fazer um spin-off da AWS? Arriscaríamos dizer que a “soma das partes vai valer mais que o todo” (vide PayPal após o spin-off com o e-Bay). Talvez perder benefícios fiscais em determinadas operações? De um jeito ou de outro ela se reinventa para compensar isso. O que de mais arriscado pode acontecer com o Google ou Facebook? Serem forçados a vender ativos importantes que caracterizem algum tipo de competição desleal? Primeiro tal “deslealdade” deverá ser comprovada (e o debate aqui pode levar anos), e caso o seja, a venda de um Youtube ou de um Instagram geraria dezenas de bilhões a estas empresas (apesar de nenhuma necessidade de caixa). Poderiam então voltar aos acionistas na forma de dividendos, por exemplo. Enfim, não é nossa intenção especular com cenários, até porque nossa bola de cristal caiu e trincou, alem de ser “Made in Paraguay”. Temos apenas a confiança de que o maior mercado acionário do planeta não tomaria medidas drásticas para destruir valor de empresas que cresceram honestamente, que geram milhões de empregos e que carregam (nas suas ações) os savings de milhões de pessoas físicas que também investem em GOOG ou AMZN ou FB espelhando os passos de grandes gestoras. Arriscaríamos dizer que toda forma de coibir e enfraquecer as Big Techs americanas acabaria sendo compensado com o crescimento e fortalecimento de Big Techs chinesas. Afinal, na disputa pelo poder (qualquer que seja ele) não se deixa vácuo.


Por fim, o mais importante: acreditamos que a demanda por tecnologia só tende a crescer. Por mais confuso, maluco, angustiante, frustrante que possa ter sido 2020, com tantos desafios e inseguranças, as pessoas foram forçadas a redimensionar e repensar suas expectativas sobre inúmeros aspectos da vida, o que acaba por favorecer o psicológico em aceitar novas soluções e inovações. Ainda que muito das nossas vidas volte à normalidade em breve (e voltará!), novos hábitos e costumes estão integrados

ao nosso dia-a-dia e vão permanecer. Vamos continuar comprando on-line, vamos continuar com distance learning para muito mais conteúdo que tínhamos no pré pandemia, vamos consumir mais e mais serviços de streaming de entretenimento (video, música e jogos). Preocupações com ESG ficaram mais relevantes, qualidade de vida ganhou prioridade (favorecendo carros elétricos, comodidade de IoT, segurança e conveniência de AI). Isso tudo se sobressai à vontades e caprichos de políticos. Sim, em muitos casos, nos parece “capricho”, como no Twitter abaixo de Sanders.

A menos que Elon Musk tenha multiplicado sua fortuna por vias ilegais (não foi o caso, foi?), deveríamos aplaudir o seu sucesso e enriquecimento, ao invés de questioná-lo ou intimidá-lo. Tesla pode mudar o mundo. Al Gore agradeceria...


F=ma