• Gabrielle Serão

ESG: três letrinhas mágicas para o valuation de tech

Atualizado: 9 de fev.

Sabemos que o termo ESGEnviromental (Ambiente), Social e Governance (Governança) – está em voga no mercado financeiro. Mas será que de fato temos uma realidade em que esses fatores já se refletem em preço, risco e volatilidade? Na nossa visão, temos um sim categórico. De um tempo para cá, as três letras juntas aceleram o ritmo de transformação nos modelos de negócios e de investimentos. Agora, além do lucro e dos riscos, é preciso considerar o impacto.


Os três pilares são compostos por alguns princípios norteadores, como mudanças climáticas, redução de emissões de poluentes, igualdade de gênero e diversidade, direitos humanos, remunerações e sistema de governança corporativa. A opinião mais generalizada sobre a relevância destes fatores ESG aponta para a convicção de que as empresas têm mais probabilidade de ter sucesso e gerar rentabilidades atraentes se criarem valor para todos os seus stakeholders, além de representar uma visão de benefícios a longo prazo, atendendo à premissa de um mundo melhor para as gerações futuras.


A história até aqui soa quase como um conto de fadas, se não estivéssemos falando de grandes estruturas de poder e dos mercados, que estão pautados em uma lógica global majoritariamente capitalista. No início da semana passada, mais precisamente no dia 18/01, a gigante Microsoft fez um grande movimento estratégico que sacudiu os noticiários. A companhia adquiriu a Activision Blizzard por aproximadamente US$70 bilhões, fato esse que torna a Microsoft o terceiro maior player da indústria de games. A entrada agressiva da MSFT confere um caráter de ataque, enquanto tudo leva a crer que para a Activision representou um movimento de defesa. Você deve estar se perguntando, mas o que toda essa história de ESG e a nova aquisição da Microsoft tem em comum? E digamos que: muito.


Em junho de 2021, a Activision Blizzard divulgou o seu primeiro relatório sobre os compromissos ambientais, sociais e de governança (ESG). O documento traz um overview de como a companhia está fazendo a gestão dos seus funcionários, de que forma promove a diversidade e inclusão, e quais as iniciativas de proteção do nosso planeta. O que isso significa? A grande designer de games e criadora do premiado e recordista CALL OF DUTY, alegou que estava investindo milhões de dólares em organizações que preparam líderes do futuro, incluindo aqueles de grupos minoritários sub-representados, Management Leadership for Tomorrow, UNCF e Girls Who Code.


Um mês depois desse marco para a sustentabilidade e para a própria Activision, a companhia foi processada pelo Governo do Estado da Califórnia, que alegou uma conduta de assédio sexual, abuso e discriminação no ambiente de trabalho. A ação legal, entregue para a Corte Superior de Los Angeles, relata uma cultura tóxica para as funcionárias da empresa, desde salários desiguais e pouca (ou nenhuma) representatividade nos papéis de liderança da companhia – de acordo com o documento apenas 20% da força de trabalho da Activision é composta por mulheres.


Como todo caso que ganha repercussão, medidas estão sendo tomadas para que essa cultura seja minimamente reparada e para que haja uma efetiva política relacionada aos princípios do ESG, em destaque, nos pilares Social e de Governança. Grandes empresas só entendem que fizeram algo muito errado quando sentem no bolso, fato que começou a pesar para a Activision, que desde a abertura do processo, sofreu uma queda de 40% das suas ações.


A grande queda reflete diretamente o ponto que destacamos acima sobre o peso do ESG, em que os sucessivos processos relacionados ao ambiente tóxico da companhia, precificou abaixo o seu valuation, permitindo a entrada triunfal da Microsoft. Isso evidencia que se de um lado temos uma empresa severamente impactada pela sua (des)governança, de outra temos uma clara oportunidade de upside, evidenciando o potencial ao mesmo tempo destrutivo e oportunístico do ESG. Quando analisamos o retorno do índice S&P500 ESG vs S&P500, fica evidente porque o investidor está tão atento a essas três letrinhas mágicas.


A venda da companhia nessa enxurrada de acontecimentos veio em boa hora, seus acionistas, conselheiros e executivos que o digam. Aparentemente, o CEO da Activision, Bobby Kotick, poderá ganhar cerca de US$ 450 milhões com a valorização dos stocks options, além de ter as acusações abafadas com a manchete de fazer parte de um movimento tão disruptivo e transformador no setor de games. Vale lembrar ainda, que há exatamente um ano o CEO da grande gestora norte americana BlackRock, Larry Fink, recorreu às mídias para falar diretamente com os executivos do mundo sobre a necessidade de as empresas apresentarem modelos de negócios compatíveis com as diretrizes de sustentabilidade. Larry ainda frisou que essa adequação não se tratava de política, agenda social ou ideológica, tampouco de justiça, mas que era o nosso modelo de mercado – o capitalismo – conduzido por relacionamentos mutuamente benéficos entre todos os agentes que estaria demandando esse redirecionamento.


Apesar dos princípios do ESG serem sólidos e terem fundamentos, sabe-se que existem dificuldades para sua institucionalização, devendo haver tanto um esforço educacional para sistematizar o ESG nas organizações e torná-lo uma prática efetiva de fato, quanto acabar com o greenwashing. Segundo dados estimados e divulgados pela Bloomberg, até 2025 o ESG deve atrair cerca de US$53 trilhões em investimentos, uma janela de oportunidade que atrai e desperta interesse em qualquer pessoa ligada no tema.


Encontrar uma forma de lidar com a emergência climática e aumentar a diversidade nos conselhos e nos quadros das empresas serão as duas prioridades de 2022 para a State Street, outra gigante entre as gestoras de investimentos. A instituição afirmou que vai se manifestar pelo voto caso as companhias não se alinhem aos padrões da Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) e não tenham pelo menos uma mulher no board. Um movimento semelhante poderá acontecer no Brasil, isso porque há uma nova norma da Anbima de classificação de fundos ESG ou sustentáveis, baseada na SFDR – Sustainable Finance Disclosure Regulation – que estabelece um prazo de adequação aos fundos que usam sufixos como ESG, verde, sustentável e impacto.


Tanto a State Street quanto a BlackRock, estão liderando as pautas para tomadas de ações factíveis agindo diretamente na realocação dos ativos e composição dos portfólios de acordo com ESG. A BlackRock recentemente colocou também alguns entraves e direcionamentos, nos quais caso as empresas não começassem a reportar eles avaliaram a potencial saída destes investimentos.


É quase um consenso para os grandes nomes da sustentabilidade que o ESG se resume a uma ação efetiva, que envolve integração transversal e sponsorship da governança. As grandes companhias, os mercados, os líderes e executivos estão tentando morder o setor olhando apenas para um lado da moeda, sem perceber que a transformação e as exigências por parte da comunidade já estão sacudindo as estruturas dos investimentos e análises tradicionais. Podemos citar diversos fundos de Venture Capital e agora um intenso movimento em fundos de ações (Private Equities) que tombam os critérios de análise do social, da governança e do ambiente para suas investidas.


Na Catarina Capital, por sermos uma gestora especializada em tecnologia e termos squads tanto na área de Venture Capital, Private Equities e até mesmo de Impacto, na nossa tese e metodologia trabalhamos diretamente com os critérios de ESG, estes que estão contemplados dentro do P do nosso modelo de análise, conhecido como TFMP – Tecnologia, Finanças, Pessoas e Mercado. Olhamos para as empresas de forma a entender que o peso desses pilares impacta diretamente na sua rentabilidade, crescimento e trajetória de mercado, classificando-as ao longo da J-curve nos seus estágios de maturidade. O ESG representa muito mais do que “Ambiental, Sustentável e Social”, ele está associado à capacidade de transformação de uma empresa, usando inovação, tecnologia e inteligência dos dados em seu favor para gerar valor em uma espiral positiva ao longo do tempo.


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