• Alexandre Constantini

Mercado Livre – Por que saímos do papel recentemente?

Na metodologia de análise do Newton Fund (baseada no TFMP), buscamos avaliar as empresas sob várias métricas nos vetores de Tecnologia, Finanças, Mercado e Pessoas. Como já explicado anteriormente, estimamos a força de desenvolvimento das empresas calculada pela área vetorial de cada critério - que somadas - nos indicam a concentração sugerida no portfólio. Além disso, acompanhamos a evolução do “Income from Continuing Operations (ICO)”, que mostra a geração de caixa operacional proveniente das operações propriamente ditas. E com base no estágio de geração de ICO, calculamos onde a empresa se encontra ao longo da J-curve. Uma empresa com ICO negativo é classificada – na teoria - como uma Hope, afinal ela ainda não se provou no quesito geração de caixa, ainda que apresente receitas crescentes e boas perspectivas de expansão. Ao virar ICO positivo, passa a ser considerada uma Struggler, e conforme aumenta a geração de ICO – que normalmente é a tendência natural pelo desenvolvimento das operações - torna-se uma Winner. Certamente que há momentos na trajetória de qualquer empresa (inclusive uma Winner) que novas frentes de negócios ou novas operações podem fazer com que ela “pivote” e regrida temporariamente na curva. E na teoria, é esse o caso do Mercado Livre, uma empresa pela qual temos enorme admiração, e que já compôs o portfólio do Newton Fund.


Suas recentes (e principalmente, futuras) investidas na área de logística – somadas a despesas de vendas ainda bastante agressivas e um aumento de custo de produtos por uma estratégia de venda com estoque próprio (1P) para determinados itens - fizeram com que seu ICO voltasse a ser negativo no 4Q20 , após alguns trimestres com esse indicador já no azul. A empresa acabou de anunciar investimentos de R$10 bilhões em 2021 primordialmente em logística, visando sacramentar o tripé “plataforma de e commerce, serviços financeiros e logística”. Ou seja, o Mercado Livre já provou que seu modelo de negócios é vencedor, e tal percepção alçou a empresa ao patamar de uma das mais valiosas da América Latina. E ainda que a empresa seja uma winner na concepção, ela está pivotando na curva com a decisão de também tornar-se uma gigante em logística.


Para reforçar melhor o que estamos falando, vale dizer que foram necessários vários anos para que os serviços financeiros do Mercado Pago ganhassem relevância no revenue pie da empresa (em 2007, o Mercado Pago gerava 4% da receita consolidada, atingindo cerca de 36% em 2020). E indiscutivelmente há agora uma enorme avenida que o Mercado Pago já está percorrendo (e-wallet, crédito, antecipação de recebíveis, cartão de crédito, e até aplicações financeiras aos clientes), mostrando que foi uma decisão bastante acertada. Por mais relevante e crucial que seja o braço de logística (Mercado Envios) – que tende a levar a empresa a um outro patamar de fullfilment, entregando bens perecíveis em parcerias com o Grupo Pão de Açúcar, e potencialmente até servindo 3ºs no futuro – temos a preocupação que os resultados de curto prazo fiquem pressionados, aumentando também a incerteza dos investidores. Soma-se a isso a expectativa de recuperação do varejo físico nos próximos trimestres, possivelmente levando a uma desaceleração no crescimento das vendas on-line, o que pode frustrar nas comparações ano sobre ano (que virão de bases bastante altas de 2020, bom ressaltar). Além disso, na atual conjuntura macro econômica, preferimos ter exposição a países que sairão mais rápido e fortes da crise, principalmente EUA e China, enquanto o Brasil lamentavelmente ainda patina na sua luta contra a pandemia, fragilizando nossa já cambaleada economia. Por isso que – neste momento – não temos MELI na carteira.


Somos fãs da Empresa! Difícil hoje quem não conheça o Mercado Livre. No ano da pandemia, as pessoas adotaram de vez o e-commerce. Sem poder viajar, jantar fora, nem fazer um happy-hour, comprar pela internet passou a ser – além de necessidade – um bom passatempo, até para suprir nossos impulsos consumistas represados. Minhas filhas adolescentes que o digam, e chega pacote do Mercado Livre em casa quase todo dia. A empresa apresenta números operacionais expressivos, conforme a tabela abaixo:


O Mercado Livre fechou 2020 com mais de 132 milhões de usuários ativos, ou seja, usuários que entraram na sua plataforma ao menos 1 vez nos ultimos 12 meses (ainda que não tenham comprado nada), sendo que quase 11 milhões de novos usuário somente no 4º tri de 2020. Essa base de clientes gerou um GMV (Gross Merchandise Volume) de cerca de USD 21 bilhões em 2020, isto é, o volume bruto das mercadorias vendidas no site do Mercado Livre, que consequentemente geraram um TPV (Total Payment Volume) na plataforma do Mercado Pago de quase USD50 bilhões ao longo do ano de 2020. Vale ressaltar que o TPV leva em consideração todo o dinheiro transacionado através dos meios de pagamentos (adquirentes, gateways, facilitadores, cartões, fintechs). Todos estes números tiveram crescimento de 3 dígitos em 2020, mostrando a força da pandemia na mudança dos hábitos de consumo das pessoas. Por isso que ainda que os próximos trimestres mostrem desaceleração no crescimento vis-

à-vis 2020 – afinal, o pós pandemia deve reaquecer o varejo físico – temos convicção absoluta que comprar on-line continuará bastante e irreversivelmente popular.


O Mercado Livre continua se aventurando por outros segmentos – todos correlatos – e a empresa vem há algum tempo desenvolvendo sua versão in-house do Shopify (chamada Shops, que é uma plataforma de comércio eletrônico na qual os usuários podem criar sua própria loja virtual totalmente hospedada com domínio personalizado, e fora do market place do Mercado Livre). E o Shops, obviamente, já nasceu integrado com com outros serviços oferecidos aos lojistas pelo Mercado Pago e Mercado Envios, tais como opções de cartão de crédito, financiamento de operações, desconto de recebíveis, software de ponto de venda, logística. Ou seja, uma belo “one-stop shop”. Outra frente ainda modesta é o Mercado Ads, a vertical de publicidade digital, que permite aos comerciantes investimentos em marketing na divulgação de suas lojas e produtos. Vale ressaltar que a Amazon vem mostrando um crescimento cada vez mais significativo neste segmento de publicidade, e muitos analistas apontam tal segmento como um grande diferencial para geração de novas receitas daqui pra frente para a gigante norte-americana. Aliás, a própria Amazon recentemente comprou uma versão australiana do Shopify (uma empresa chamada Selz), sugerindo não somente a atratividade deste negócio, como sua importância estratégica.


Ou seja, Mercado Livre vem seguindo bons passos para perpetuar um futuro brilhante.

Permanecemos monitorando a empresa, atentos aos seus passos e conquistas, na expectativa de voltarmos em algum momento a adicioná-la ao portfólio do Newton Fund.


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