• Thiago Lobão

Por que Tesla não está mais em nosso portfólio de investimentos? Estamos diante de um meme?

O grande destaque da temporada de resultados no terceiro trimestre, até o momento, fica por conta da Tesla: em um ambiente econômico cada vez mais desafiador para as montadoras, a empresa entregou outro trimestre de recordes, superando as projeções de EBITDA dos analistas em quase 10%, fruto de uma margem bruta acima do esperado (26,6% contra 24,21% projetado). A entrega de novos carros ficou em 241mil unidades, um aumento de 73% em relação ao mesmo período do ano passado – se considerarmos os nove primeiros meses do ano, a empresa praticamente dobrou o número de veículos.


O terceiro trimestre da indústria automotiva foi marcado pela severa redução na produção, resultado da falta de semicondutores e dos problemas logísticos que assolam o mundo. Como resultado, vimos uma queda expressiva no número de carros vendidos pelas grandes marcas, como GM (33% a mesmo que no mesmo período do ano passado) e Ford (15% a menos). Era de se esperar que pelo menos algum impacto também seria visto nos resultados da Tesla; os números, entretanto, mostraram que a empresa passou longe dos problemas que assolam o planeta. Esse fenômeno pode ser explicado por dois fatores preponderantes: o primeiro é a disposição geográfica da empresa. A Tesla, hoje, produz carros em apenas duas plantas, sendo uma Califórnia e, a outra, em Shanghai. A concentração em apenas duas plantas (ao contrário da GM, por exemplo, que possui dezenas de plantas apenas nos EUA) permite à empresa ganhos de eficiência em logística, tanto pela simplicidade na operação quanto pela proximidade do mercado chinês, maior produtor de chips do mundo. O outo motivo pelo qual a Tesla parece ter conseguido evitar os problemas vistos em toda a indústria tem a ver com a tecnologia embarcada nos carros da empresa: a Tesla utiliza chips de última geração nos seus carros, chips esses mais avançados que aqueles vistos no resto da indústria. O fato de não haver tanta demanda por esse produto também joga a favor da empresa, que pode trabalhar melhor a relação com os seus fornecedores.


O resultado do terceiro trimestre expõe fortalezas importantes na concepção inovadora de produtos da Tesla frente aos concorrentes – elementos que já eram de conhecimento de mercado e, em geral, já precificados na avaliação da grande maioria dos analistas. A pergunta que surge é: por que resultados dentro do esperado destravaram tanto valor para a empresa recentemente? E por que especificamente a transação de compra de 100.000 veículos da Tesla pela Hertz parece ter acentuado ainda mais essa valorização para níveis acima de U$1 tri?


Debatemos no Newton Tech Fund sobre o tema e revistamos o caso Tesla em nosso modelo de análise, o TFMP, que busca olhar as empresas sob a perspectiva de quatro pilares – Tecnologia, Finanças, Mercado e Pessoas. Nos patamares de preço atuais, ainda enxergamos uma inconsistência significativa da avaliação do papel frente a outros players em estágio similar ao longo da J-Curve (Tesla se configura como uma das strugglers – empresas com recentes resultados de geração de caixa operacional). Numa avaliação fundamentalista, a companhia ainda precisará conviver com um mapa competitivo cada vez mais agressivo e pulverizado em novos entrantes e antigos players que têm sim se movimentado de forma inovadora na temática de carros elétricos e autônomos (desafios críticos na dimensão de análise M).


A empresa tem atrasado sistematicamente o roadmap de lançamento de veículos puramente autônomos, considerado o divisor de águas para a mobilidade humana e que, muito provavelmente, será responsável por dividir quais serão as companhias realmente perpetuadas como líderes no setor automotivo (mais desafios, agora na dimensão T).


A companhia ainda convive com o dilema da instabilidade de seu fundador, Elon Musk, que chegou a considerar vantagem da atual posição de valorização da empresa para mais uma movimentação nada tradicional: jogar ao seu público no Twitter a decisão sobre vender 10% das suas ações na empresa, com a justificativa de questionar a tributação sobre lucros não realizados (um desafio constante na dimensão de análise P).


Entendemos no Newton Tech Fund que Tesla já tem sim destravado valor como player inovador no setor automotivo, em posicionamento análogo ao fenômeno de aumento de valor agregado na experiência de usuário e empoderamento da percepção de marca, legados essenciais de Steve Jobs na Apple. A questão chave de análise, em nossa visão, é de que batimento de metas financeiras e agressividade de crescimento são premissas na avaliação de preços de Techs com múltiplos – não consequências de resultados já pré-precificados. Uma Tech tende a não superar patamares de preço de ação por bater metas e disruptar concorrentes – isto já é feito previamente pelo mercado, na construção das premissas de crescimento e de transformação propostas por cada negócio. A compra de veículos pela Hertz tampouco catalisa qualquer nova destrava de valor. Nossa visão, portanto, é de que haverá eventualmente um fenômeno de correção do papel, muito provavelmente estimulado pelas próprias provocações de liquidez do fundador da empresa.


F=ma


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