• Bruno Freitas

Posição em Enphase Energy – inovação tecnológica em microinversores para autossuficiência energética

Com o preço do barril de petróleo flutuando acima dos 100 dólares e com o gás natural apresentando alta superior a 80% no ano, diante das atuais tensões geopolíticas, é instintivo o aumento da procura por novas fontes energéticas, em especial no âmbito de energias limpas e renováveis. Enquanto governos e grandes corporações apresentam dificuldades e lentidão nesse processo de alterar a sua matriz energética, o cidadão comum busca, na prática, alternativas mais eficientes do que só economizar o tempo no banho.


Atualmente, as tecnologias existentes para geração distribuída já permitem a autossuficiência energética em pequena escala residencial – em outras palavras, já é viável produzir sua própria energia sem depender da rede pública, sendo possível inclusive vender o excedente energético e ter resultado financeiro com sistemas de geração proprietários. Neste objetivo, a energia solar apresenta-se como opção mais efetiva, onde um sistema completo de produção e armazenamento possibilita também armazenagem de energia para eventuais emergências, além da distribuição do excedente para a rede.


A empresa americana Enphase Energy (ENPH), nascida em 2006, foi uma das pioneiras a executar um roadmap de desenvolvimento tecnológica com base numa visão de mundo com matriz energética pulverizada, mirando a autossuficiência energética em diferentes escalas. A empresa lidera o desenvolvimento proprietário de microinversores solares, tornando-se referência absoluta nesse tipo de dispositivo, acoplado às placas de geração. Além dos equipamentos, a companhia fornece uma plataforma de software com funcionalidades que permitem o gerenciamento de geração fotovoltaica para residências e pequenos comércios, também ofertando produtos como sistemas de baterias e até mesmo carregadores de veículos elétricos a partir da ClipperCreek - empresa recentemente adquirida pela Enphase.


Sendo uma casa especializada em ativos de tecnologia, a Catarina Capital aplicou a metodologia de análise TFMP (Technology, Financials, Market, People) para avaliar Enphase Energy e compreender como a companhia desempenha nesses quatro conjuntos de fundamentos, essenciais para que a empresa mantenha uma jornada de forte crescimento e geração de valor ao acionista a longo prazo.


Ao analisarmos a Tecnologia (T) de Enphase, precisamos entender principalmente como funciona um sistema fotovoltaico e a importância do microinversor dentro dele. Para não se alongar neste artigo e voltarmos ao século 19 com Thomas Edison e George Westinghouse, é importante entendermos que a energia produzida pelos painéis solares está em corrente contínua, porém a energia utilizada em nossas residências e na maioria das aplicações é em corrente alternada, e é nesse ponto que entra o microinversor da Enphase, sendo ele o responsável por viabilizar essa conversão com alta eficiência.


Basicamente, num sistema fotovoltaico utilizando microinversores, para cada painel solar é aplicado um microinversor. Com essa configuração, elimina-se a necessidade de um inversor central de menor eficiência de conversão, possibilitando também o monitoramento de produção exato de cada painel sem precisar de um otimizador. Um diferencial para a última geração de microinversores, IQ8, é a possibilidade de continuar a geração de energia com a rede pública desligada sem a necessidade de um sistema de baterias, sendo o único sistema do mercado com essa funcionalidade.


Com desenvolvimento do primeiro sistema fotovoltaico utilizando microinversores em 2008, a companhia assumiu o posto de pioneira na tecnologia e atualmente seus produtos são assumidos como o estado da arte num mercado dominado por grandes players de equipamentos tradicionais (Huawei, Sungrow, SMA, dentre outros). Na prática, a grande disrupção energética promovida pela Enphase, frente à competição no mercado, está no fato de sua proposta tecnológica não apenas inverter a corrente de geração, mas sim reduzir significativamente a necessidade de baterias para armazenagem no mercado, com foco inicial restrito aos sistemas residenciais ou comerciais de pequeno porte.


A empresa tem forte atuação no mercado norte americano, responsável por volta de 80% da receita da companhia. Nossa análise de Mercado (M) tem como principal base o mercado nos EUA, porém contemplando a evolução de negócios em mercados ainda incipientes para a empresa, mas que apresentam boas perspectivas de crescimento, como Europa e Índia. Na terra do Tio Sam, a energia solar teve um CAGR de 33% na última década, impulsionado por fortes políticas federais, redução nos custos e o aumento da demanda em todo setor público e privado por eletricidade limpa.


Um dos fatores determinantes para o crescimento desse setor são os custos relacionados à geração solar, que diminuíram em mais de 60% na última década. Entretanto, a crise de supply chain ocasionada pela pandemia gerou leves elevações de custos nos últimos dois anos – a pandemia acabou sendo positiva para a Enphase, visto que a companhia foi uma das poucas do setor a manter nível de entrega de dispositivos no mercado, em razão de boa capacidade de gestão de fornecedores e disponibilidade de capital para aproveitar o momento para ganho de market share com sua nova proposta tecnológica.


A respeito do mercado europeu, entendemos que esse possa ser um dos principais drivers para a empresa impulsionar suas operações e gerar maior valor para seus acionistas. Atualmente a empresa tem forte presença em países como Holanda, França e Bélgica, com boas perspectivas de crescimento em outros países como Itália, Espanha e Portugal, ainda distante do volume de atuação no mercado americano, mas com oportunidade escancarada de crescimento vide o atual contexto bélico no velho continente.


Na análise Financeira (F) da empresa, notamos um forte crescimento de receita, acima dos dois dígitos ano a ano nos últimos 4 exercícios, em especial no ano de 2021, com marca de 78,46% de crescimento anual. A empresa é geradora de caixa desde 2018, com metas financeiras que apontam percentuais sobre receita de 35% para margem bruta, 15% para despesas operacionais e 20% em lucro operacional. Um ponto de destaque financeiro se dá na evolução do tíquete médio da empresa ao longo dos anos, de acordo com a dinâmica de upselling de soluções na sua base de clientes. Em 2019, o tíquete potencial residência/comércio se dava na faixa de US$2.000 por cliente – em 2021, o mesmo potencial juá havia saltado para US$9.000, com expectativa de alcançar a marca de US$12.000 a partir de 2023.


A análise de preço da ação revela múltiplos esticados na comparação com outras verticais produtivas, mesmo dentro do escopo de verticais Tech. A empresa flutua EV/Revenue na faixa de 13,5 e P/E futuro em 51. A comparação dentro do setor, porém, ameniza o distanciamento frente a peers, sendo um ponto de atenção, mas não inviabilizador em nossa visão da montagem de uma posição de alocação com visão de longo prazo, vide a manutenção de fortíssima curva de crescimento e, ao mesmo tempo, geração de caixa.


Finalmente, não menos importante, comentamos dois pontos de nossa análise de Pessoas (P). Ao olharmos o conselho da empresa e o quadro de executivos, encontramos uma predominância de executivos que trilharam carreira no segmento de semicondutores, complementados por uma equipe com vasta bagagem em Venture Capital. A empresa enfrenta o desafio de baixa retenção de profissionais na comparação com nossa base de empresas para análise, ponto que atenua nossa concentração potencial na companhia nesta dimensão de análise.


Em síntese, trata-se de uma empresa com a pretensão de revolucionar e escalar a geração distribuída de energia globalmente, com forte crescimento no mercado americano e tese de escala lastreada em seu potencial global. A companhia atua na diminuição da demanda global por baterias em instalações imóveis, através do desenvolvimento de microinversores de alta eficiência, combinados a uma plataforma de software para otimização da gestão de produção energética. O mapa competitivo da empresa é ponto de extrema atenção, assim como pontos negativos em gestão de pessoas que, tipicamente, não são vistos em empresas com bagagem de venture capital que, após a curva-J, já são geradoras de caixa, como no caso da companhia. A conclusão do modelo TFMP estático apresenta uma pequena concentração com visão de longo prazo e a análise dinâmica realizada pela gestora mantém o ativo com esta concentração no curto prazo. A empresa tende a ser empoderada pelo contexto de desglobalização das transações energéticas entre países, especialmente na Europa. O fator preço, que sim denota múltiplos altos no momento macro de incremento de juros, ainda está num limiar considerado factível para alocação pela gestora, por mais que, em curto prazo, deva sim continuar sofrendo com a volatilidade típica de um momento de turbulência com observado no mercado atualmente. ENPH passa a fazer parte, a partir deste segundo trimestre de 2022, do portfólio Newton Tech Fund.


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