• Thiago Lobão

Queda das Ações tech: alta dos juros e guerra na Ucrânia

Por que não nos defendemos do aumento dos juros nos EUA, mas estamos sim protegendo a carteira da Guerra na Ucrânia?


Em tempos de Web 3.0, discutir sobre uma nova Guerra Fria 2.0 soa como um paradoxo. O mundo parece realmente ter perdido o prumo neste 2022, um ano em que se previa uma reorganização gradativa no pós-pandemia. Haja volatilidade, num contexto estranho, pra não dizer louco, em que pós-pandemia e guerra convivem exercendo pressões antagônicas, e bastante instáveis, sobre os movimentos de oferta e demanda em diversas cadeias produtivas. E tem gente que ainda tem coragem de querer predizer o movimento cambial num cenário desses – valha-me poupe! Parece até que esqueceram da eleição no segundo semestre neste Brasil polarizado, um país que atualmente só parece servir aos gringos para especulação na rotação de capital para mercados aparentemente alternativos, num mundo inédito, em que supreendentemente o dragão da inflação aponta na cara do Tio Sam.


Pois bem, a guerra jogou anos de trabalho em prol da globalização para escanteio. Quando começamos o Newton Tech Fund, há quase 2 anos, discutimos muito sobre a concepção de uma matriz para gestão de Risco que contemplasse eventos de baixa, média e alta probabilidade de materialização, assim como eventos já materializados, separados em impactos individuais (influência direta em apenas uma ação específica), impactos setoriais (influência em setores combinados) e impactos sistêmicos (influência em todo o universo de cobertura de ações que detemos).


No início do Fundo éramos em 5 profissionais com experiências bastante complementares, alguns com mais de 25 anos de labuta no setor financeiro, com passagens pela crise dos Tigres em 1997, pela bolha em 2000, pelo Subprime de 2008, e claro, mais recentemente pela pandemia do Coronavírus – ninguém ousou citar a possibilidade de eventos bélicos que incitassem a Terceira Guerra Mundial (e olha que o brainstorming considerou aberrações que, em tempos de corona, deixaram de ser apenas ficção científica). A verdade é que ninguém contava com mais essa – soa como urucubaca da brava mesmo, ainda mais num mundo em que o Corona e suas versões mutantes não nos deixam em paz.


Neste mundo completamente revirado, nosso papel como gestores de investimento, ainda mais no momento atual, é manter a disciplina na tomada de decisão de nossas alocações, preservando a estratégia long-only do Fundo, totalmente dedicada em Ações Globais de Base Tecnológica. Não acreditamos que para se blindar de possíveis correções bruscas a solução seja manter a totalidade do capital dos investidores em caixa, jogando contra o mercado na baixa e comprando uma bola de cristal para acertar o upswing do retorno de valorização das ações. Tampouco achamos viável ficar 100% comprado no índice de forma passiva – acreditamos que a missão da gestão ativa de investimentos na crise é, antes de tudo, revisar e revisar e revisar os fundamentos que endossam a nossa seleção de papéis. O fato é que podemos, e vamos, sim aproveitar momentos de baixa para a construção de novas posições em investimentos com boas condições de entrada em preços atrativos. E é claro, pode-se sim executar momentos defensivos que preservem capital, sem perder a mão ou desistir da tese. Não adianta posicionar-se como um fundo especializado em Tech e, na crise, abandonar suas convicções para investir em Óleo e Gás – é momento sim, ressalto, de intensificar a análise de oportunidades derivadas do atual contexto.


Agora, não se pode negar que, em rápido espaço de tempo, observamos dois fortes movimentos de pressão sobre as Ações Tech, praticamente com efeitos combinados nos preços. O Nasdaq-100 apresentou uma baixa histórica este ano, chegando a cair 20% no acumulado até 15/março. Conosco no Newton, não foi diferente. Caímos bem - chegamos a 10% de perda acumulada em nossa cota – para um fundo que já chegou a render mais de 30% a seus investidores em meados do ano passado, trata-se de um drawdown expressivo. A pergunta mais frequente é: por que vocês não se defenderam da queda antes e por que afinal parecem estar se defendendo agora na guerra?


A resposta está na análise de impactos dos eventos sobre fundamentos a longo-prazo.

Naturalmente, não tínhamos bola de cristal para precisar o tamanho da correção que as Techs sofreriam, mas tínhamos sim a clareza de que o tapering americano, combinado a medidas mais fortes do FED para correção da inflação penalizariam nosso portfólio. As Techs, por mais que em muitos casos grandes geradoras de valor, ainda são vistas e avaliadas pelo mercado com holofote na agressividade de seu crescimento (e em múltiplos que denotam isso). Ações Growth consistentemente sofrem em momentos com incremento de custo de capital, voltando gradativamente a rentabilizar, pós-correção, conforme mantenham e/ou superem guidances de crescimento pós-crise. As quedas em janeiro/fevereiro, antes da Guerra, foram evidentemente mais fortes em ações que reduziram expectativas de resultados futuros, reduzindo guidance de receita. De toda maneira, com exceção de Meta (Facebook), foram raros os casos de empresas que perderam inércia de crescimento em razão de ameaças a fundamentos de seus negócios. Numa visão de longo-prazo, não nos parecia fazer sentido movimentos de realização de posições em papéis que, após um período de reordenação monetária, por mais longo que fosse, persistiriam empoderados por toda adesão global às soluções de tecnologia, nas cadeias B2B (nossas posições em Semicondutores, MultiCloud, Segurança Cibernética e Corporate SaaS) e B2C (posições em E-commerce/Marketplaces, Fintechs e Streaming).


O início da Guerra na Ucrânia não havia alterado, a princípio, o cenário descrito anteriormente, por mais absurdo que seja para nós conviver com mais um conflito trágico em pleno século XXI. Até que Joe Biden começou o anúncio e a intensificação de sanções que colocaram em xeque a globalização de diversas cadeias produtivas e, consequentemente, quaisquer condições de crescimento econômico no pós-pandemia – chegamos diante de um cenário de recessão global que, infelizmente, decorre da dependência enorme que temos de Óleo e Gás em nossa matriz energética e, no setor de alimentos, da concentração exagerada dos polos globais de produção de fertilizantes de base – ambos segmentos em que Rússia tem papel mais do que importante.


Enquanto as sanções estiverem ativas (mesmo o fim da guerra não parece ser suficiente para revertê-las) estaremos diante de uma nova cadeia global de suprimentos, com custos de logísticos e de produção significativamente alterados, num ambiente em que o fantasma de movimentos análogos ao Rússia-Ucrânia seguirá tirando o sono, em especial no caso China-Taiwan.


Trata-se de um risco sistêmico sobre a cadeia global de Semicondutores, que depende enormemente da logística e de suprimentos globais, com concentração da escala de produção em Taiwan atualmente. Trata-se também de uma recessão que pode frear a continuidade de crescimento agressivos em players Tech que estão intrinsicamente ligados ao consumo digital, como no caso de soluções em E-Commerces, Fintechs e Mídia.


Em alguns casos, dado a “desglobalização” em curso, modelos de negócio terão que se adaptar. Em resumo, a guerra, em específico, não ataca fundamentos das Techs, mas as sanções simbolizam um movimento produtivo que tem interferência crítica em diversas aplicações de tecnologia.


Agora, este cenário é necessariamente ruim para nós no Newton Tech Fund? Toda crise abre excelentes oportunidades: nossa matriz de risco (agora atualizadíssima!) impõe sim medidas de proteção colocando on hold posições com forte componente de Growth em Semicondutores, E-Commerce/Marketplaces, Fintechs e Streaming. São papéis que voltarão ao portfólio tão logo tenhamos eventos que recalibrem a globalização do mundo, ou através da volta da realização de negócios entre Ocidente e Rússia de forma ordenada, ou através de resultados tangíveis de crescimento econômico global que demonstrem a adaptação das cadeias produtivas à incompatibilidade da Rússia como parceiro comercial.


Por ora, o Newton segue seu caminho com 3 principais teses de investimento, derivadas de nosso modelo de análise (TFMP – Tecnologia, Finanças, Mercado e Pessoas):

1. Grandes Techs geradoras de caixa, caracterizadas pelo bom nível de diversificação de seus negócios (Alphabet, Microsoft, Amazon como exemplos mais típicos);

2. Techs impulsionadas por um contexto de dualidade geopolítica, em especial nos segmentos de multicloud e segurança cibernética, onde já mantínhamos bom volume de alocação (Datadog, Palo Alto Newtorks, Fortinet, Crowdstrike, Okta, dentre outras líderes em diferentes aplicações).

3. Techs expressivas, porém posicionadas em setores e/ou geografias adjacentes à Guerra Fria 2.0, que caracterizam boa oportunidade de descorrelação aos índices globais (Intuitive Surgical, Mercado Libre e Nubank como exemplos).


Estamos acelerando a cobertura de novas empresas, em particular nos tópicos 2 e 3 citados anteriormente. Diante das incertezas dessa nova Guerra Fria que desponta, vamos intensificar a posição em segmentos descorrelacionados ou empoderados pela centralização das cadeias de produção, como no caso de Agtechs, Miningtechs, líderes globais no desenvolvimento de soluções disruptivas na cadeia de energia e, adicionalmente, líderes Tech em geografias menos impactas pela crise. Nossa missão, como ressaltado anteriormente, está longe de ser apenas acertar o timing de entrada ou saída de papéis. Nossa visão, antes de tudo, é de fundamentos e longo-prazo – precisamos preservar e intensificar as alocações em ações vencedoras, seja num futuro mundo globalizado, ou não. Afinal, tech é base para tudo – infelizmente até mesmo para a Guerra.


F=ma