• Alexandre Constantini

Alibaba – Menos Incertezas, Melhor Visibilidade

O Alibaba é um verdadeiro império empresarial na China, com operações dominantes em vários segmentos, tais como e-commerce, serviços financeiros, cloud computing, midias sociais, entretenimento, etc.

Assim como seus maiores rivais chineses – Tencent e Baidu, ambos conglomerados gigantescos e poderosos – estas empresas investem maciçamente em start-ups (com participação em centenas delas), o que acaba lhes garantindo sempre uma posição de destaque na vanguarda tecnológica. O Alibaba, simplificadamente, pode ser ilustrado pela figura abaixo, o que nos dá uma precisa noção do tamanho e diversificação deste império:

O poder e influência do Alibaba obviamente tornou-se tão grande e relevante ao longo dos anos (a empresa foi criada em 1999) , que passou a incomodar a cúpula do Partido Comunista Chinês, e tal incômodo atingiu seu ápice no fim do ano passado, quando Jack Ma, fundador do Alibaba, reclamou publicamente da interferência do PC chinês na regulamentação do mercado de serviços financeiros, o que acabou levando ao cancelamento do IPO do Ant Financial Group (braço financeiro do Grupo Alibaba e controlador do Ali Pay, uma das maiores plataformas de pagamento instântaneo na China). Por mais que Jack Ma tenha sempre caminhado ao lado do PC Chinês – ninguém na China tem o tamanho do Alibaba sem estar absolutamente alinhado aos homens fortes de Pequim – arriscaríamos dizer que Jack Ma “abusou” do seu prestígio com a cúpula do partido, reclamando publicamente desta interferência. Foi o bastante para que não só o IPO do Ant Financial fosse cancelado, como também desencadeasse ajustes no cenário competitivo das Big Techs chinesas, algo há tempos na agenda do Governo, mas até então sempre postergado.


O Alibaba foi acusado de práticas anti-competitivas na sua operação de e-commerce, forçando comerciantes a escolher entre sua plataforma ou a dos concorrentes. As maiores reclamações vieram do Pinduoduo (PDD), que também oferece uma plataforma de e-commerce, mas com presença mais marcante nas cidades menores e com menos poder aquisitivo, focando primordialmente em produtos mais baratos (boa parte deles, produtos agrícolas ou perecíveis), e visando compras coletivas.


Abaixo temos dados de 2019 mostrando a liderança folgada do Alibaba nas vendas de e-commerce no varejo, o breakdown de vendas por tamanho de cidades, e o ticket médio por pedido. É notório o poder de barganha que o Alibaba tem, o que gerou as reclamações. A JD.com (controlada pela Tencent) tem maior presença em cidades Tier 1 e 2 (ou seja, as maiores e mais populosas), o que lhe garante um valor médio de pedido maior que as demais.

Mas voltando ao ponto, com as reclamações de concorrentes menores sobre práticas anti-competitivas, bem como o “desentendimento” público de Jack Ma com a cúpula do partido chinês, tivemos duas outras decisões mais severas afetando o Alibaba, além do cancelamento do IPO do Ant: 1) no mês passado, o grupo foi forçado a se desfazer dos seus ativos de mídia, incluindo aqui as suas “versões made in China” de Netflix e Spotify, e 2) na semana passada, a empresa foi multada em USD 2,8 bilhões. Por mais que tais ações sejam relevantes e sugiram um estrago significativo à primeira vista, os ativos de mídia e entretenimento geram modestos 4% da receita do grupo....e a multa de USD2,8 bi – embora vultosa isoladamente – faz pouco estrago num balanço com posição de Caixa & Investimentos de liquidez imediata de USD70 bilhões em Dezembro 2020. Além disso, o Alibaba gerou free cash flow de USD15 bilhões somente nos últimos 3 meses de 2020. Tanto é que as ações do Alibaba fecharam com quase 10% de alta no dia seguinte ao anúncio da multa, sugerindo que “pior que notícia ruim é a incerteza da magnitude das notícias ruins”.


Aliás, vale um rápido adendo, ressaltando a solidez dos números reportados pelo Alibaba entre os meses de Setembro e Dezembro de 2020 (resultados mais recentes reportados pela empresa), positivamente impactados pela recuperação econômica na China (único país do mundo a fechar 2020 com crescimento positivo de PIB), bem como vendas extremamente robustas no “turbinado” Dia dos Solteiros, tradicionalmente celebrado em novembro e com enorme apelo comercial (desenvolvido ao longo de 11 dias corridos em 2020, como um esforço para neutralizar os impactos da pandemia). Além de crescimento de dois dígitos em cada uma das linhas mais representativas de negócios, talvez o indicador mais relevante do trimestre tenha sido a rentabilidade do Ali Cloud (braço de SaaS do grupo), que tornou-se EBITDA positivo pela 1ª vez desde o início de suas operações em 2009.

Outros highlights interessantes:

  • 69% da receita total foi gerada por atividades de varejo dentro da China (core commerce), business que permanece intacto até o momento

  • Consumidores anuais ativos totalizaram 779 milhões, com adição líquida de 68 milhões nos 12 meses anteriores

  • Usuários móveis ativos mensais somaram 902 milhões, com adição líquida de 78 milhões nos 12 meses anteriores

Abaixo um rápido breakdown da receita no fim de 2020, e chamamos a atenção para o negócio de mídia que será vendido:


No mais recente revés para Jack Ma (quem sabe, o derradeiro?), anunciado na última 2ª feira, o Governo chinês definiu que o Ant Group – embora uma fintech na sua essência – vai ser regulamentado pela legislação dos bancos chineses, ou seja, com as mesmas obrigações de reservas de capital, taxações, e obrigações e riscos de underwriting que os bancos comerciais. Isto obviamente afeta e limita a rentabilidade da operação, mas torna de fato a competição mais justa na oferta de serviços financeiros, principalmente na concessão de crédito. Dito isso, caso o IPO do Ant Financial seja eventualmente retomado, o valuation tende a ser bem mais modesto que os USD300 bilhões originalmente estimados na época.


Talvez ainda venham restrições adicionais ao grupo, mas entendemos que o Alibaba continua em grande forma para competir no e-commerce, que gera dois terços de sua receita total. O Ali Cloud – uma empresa de SaaS com margens muito saudáveis – acabou de atingir seu break-even operacional, e deve melhorar sua rentabilidade a cada trimestre. E inovações tendem a despontar no segmento de “new seed businesses”, que certamente vão continuar semeando um futuro promissor do Alibaba.


Jack Ma dizia que a meta do Alibaba é durar (ao menos) por 102 anos, fazendo história por 3 séculos distintos, já que a empresa nasceu em 1999. Na China, é bom “não cutucar a onça com a vara curta”, e Jack Ma parece ter se esquecido disso temporariamente ao criticar os “donos da bola”, mas seguimos confiantes que a meta dos 102 anos tem tudo para ser atingida com louvor. Afinal, além de ser uma empresa formidável com 250 mil funcionários, o Alibaba (assim como Tencent e PDD) tem uma capacidade ímpar de fomentar a economia e promover a inclusão social de classes menos favorecidas, já que nunca foi tão simples vender pela internet, dando chance a artesãos, pequenos agricultores, micro-empreendedores comercializar suas mercadorias e gerar renda. Xi Jinping & Cia sabem disso, certamente.


No Newton Fund, temos exposição à China via Alibaba e Tencent, e continuamos muito entusiastas destas empresas, apesar dos ajustes no cenário competitivo e de tensões esporádicas com percalços geo-políticos.


F = ma